Relato de Renato Basile

Quando fui pela primeira vez ao Caminho de Santiago, em setembro de 2015, apenas dois meses após decidir percorrê-lo, eu sabia que iniciaria aquela jornada sozinho e era o que eu queria. Porém, de início tive algum receio. Era o medo do desconhecido e do grande desafio de caminhar 800 km do outro lado do mar subindo e descendo montanha, no sol, na chuva, no frio e no calor. Lembro-me que cheguei a pensar em convidar algum amigo para ir, mas os que supostamente poderia chamar estavam sem dinheiro ou trabalhando ou não tinham essas ideias malucas e exóticas.

Creio que esse pensamento durou, talvez, uma semana. Enquanto treinava caminhadas de longa distância (treinei 35 dias e passei 15 machucado com inflamação em um nervo na coluna), pesquisava e aprendia o que se pode aprender na teoria sobre a peregrinação, fui me convencendo que ganharia muito mais se fosse sozinho. Lembrei de todas as viagens que fizera em minha vida acompanhado de bons amigos e que tiveram, naturalmente, momentos bons e outros nem tanto, sempre influenciados por decisões, em boa medida, conjuntas. Esta outra viagem, entretanto, deveria ser apenas minha, iniciada sem vinculos pessoais estabelecidos, compromissos com terceiros e até mesmo sem a conveniência cultural e linguística. Era uma viagem de introspecção e autoconhecimento e uma companhia fixa naturalmente tiraria um pouco desse foco.

Refletindo sobre isso, ainda naqueles dias que antecederam a minha partida, cada vez mais tinha a convicção que aquela era uma viagem que deveria prescindir de qualquer segurança que não fosse meu bom senso, zelo e cuidado. Esse pensamento não apenas fortaleceu minha convicção como gerou uma alegria e entusiasmo crescente. Em poucos dias eu já achava inconcebível a ideia de convidar alguém para viajar comigo. E mais, percebia como aquela breve cogitação não era o desejo de compartilhar aquela viagem com alguém, senão uma desculpa para não enfrentar o grande desconhecido, externo e interno.

Para contextualizar melhor, em abril daquela ano ocorreu o desaparecimento de uma peregrina americana. Além disso, havia uns poucos relatos de abordagens de ciganos a peregrinos que supostamente poderiam gerar algum tipo de inconveniente. Algumas mulheres aqui do grupo que fariam o caminho sozinhas naquele ano estavam pra lá de apreensivas. Além disso, havia uma meia dúzia de “peregrilos” sem-noção que publicavam posts alarmantes sobre tudo: chinches, lotação de albergues, bolhas, montanhas e principalmente sobre segurança. Um horror.

Embora descartada a possibilidade de propor a viagem a alguém, essas “pedras de tropeço” relatadas acima, além do receio de trocar minha casa por albergues e uma mochila (um amigo peregrino professor de espanhol ensina que na peregrinação “la casa es la mochila”) ainda geravam um certo incômodo que, na verdade, só desapareceram quando saí de casa com a mochila nas costas e peguei um táxi para o aeroporto. Não existe atalho.

Hoje, em meados de 2017, escrevo essas poucas linhas depois de ter percorrido duas vezes o Caminho Francês (a segunda foi em maio de 2016). Saí daqui sozinho as duas vezes e pra ficar sozinho precisei “fugir” das pessoas. Claro que nem sempre quis fugir. Conheci pessoas maravilhosas nos dois caminhos. No primeiro, logo em San Jean Pier de Port conheci quatro brasileiros. No dia seguinte, em Orisson, encontrei todos eles, Karina, Karine, Rosana e Sidney e seguimos juntos, de alguma forma, até Santiago. E, de alguma forma, seguimos juntos até hoje. No Caminho apareceram tantos outros brasileiros, que também estão aqui: a Adriana, a Fátima, o Castilho, o Celso, o César, o Cláudio, a Mara, a Natália, apenas do primeiro caminho. De volta ao Brasil, conheci outros peregrinos, entre os quais a Tatiana e o Jorge que, como eu, tambem voltaram ao Caminho em maio de 2016. Somos mais de 3 mil brasileiros anualmente a caminho de Compostela. Isso apenas pra falar dos brasileiros, sem contar os inúmeros estrangeiros que vinham conversar comigo em português.

Não digo que os inconvenientes não existam, mas particularmente encontrei muito pouco deles, nas duas vezes. Não tive nenhuma lesão muscular, nenhuma bolha incapacitante, nenhuma cama com chinches, nenhuma cigana dissimulada, nenhum ladrão de galinha ou de chinelos, nenhuma noite ao relento. Claro que fazia alongamentos, cuidadava dos pés, respeitava meu corpo, vistoriava os colchões, cuidava dos meus pertences e olhava por onde andava. Entretanto, sei que nada disso é garantia absoluta. Corremos riscos diariamente, não importa onde estejamos e o quanto nos precavemos. “Viver é muito perigoso”, já dizia o Riobaldo, do Guimarães Rosa. Porém, estou convencido de que qualquer dificuldade, em qualquer grau, é contornável pela nossa capacidade e inteligência, pela solidariedade de outros e pelo cuidado invisível e inexplicável que nos acompanha todos os dias aqui e além, creiamos ou não.

Enfim, se você hoje está passando, de alguma forma, pelo que passei, espero que esse testemunho seja útil e contribua para que você planeje e faça seu caminho por você mesmo e não terceirize sua força, coragem e capacidade para organizá-lo e realizá-lo a mais ninguém. Acerte e erre sozinho. Tudo é experiência e crescimento. E como disse o Pessoa, “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Bom caminho!