Relato de Marcia Elena Guahyba

Lembro a todos que escrevi este texto há 17 anos, quando o Caminho de Santiago era muito diferente de hoje.

Um Pouco de Mim no Caminho

As pessoas que percorrem este caminho são pessoas comuns e diferentes; sim, comuns e diferentes porque são especiais.

E especiais porque são pessoas escolhidas.

Nós não escolhemos fazer o caminho. Ele nos escolhe.

A opção é nossa em fazê-lo. A oportunidade é única e pode durar a vida inteira.

Começa assim. Você, um dia, conhece alguém que foi lá ou viu uma reportagem na TV, revistas, jornais, etc…,aí dá um estalo: _ Algum dia vou lá também!

Às vezes passam anos até que possamos ir. Mas vamos.

No meu caso demorei um ano desde que me decidi. Foi difícil. Deixar meu marido e principalmente meu filho, sozinhos durante 30 dias parecia impossível. Mas tudo podemos quando se trata deste chamado.
Alguma coisa me dizia que precisava ir. E assim foi.

A experiência é algo que jamais se esquece. A emoção é tão forte que mal conseguimos respirar e andar ao mesmo tempo. As pessoas tornam-se amigas sem entender uma única palavra do que se diz, pois a dor é a mesma, o sofrimento é um só. Aprendi tanta coisa num curto período.

Não sei o que dói mais. Se é a mochila nas costas, o tênis apertando, o pé, a mão com ferida sangrando do cajado ou a saudade, o choro, a dor no peito.

A dor física e a dor psicológica brigam todos os dias e a todo momento. A dor de nunca ter ficado sozinha comigo mesma e aprender com isto foi muito difícil. O frio, a fome, a sede são obstáculos pequenos perto do que é caminhar horas e horas sem ver ou ouvir alguém( ás vezes 8 a 10 horas por dia), um dia caminhei 12 horas e fiz 50 kms devido a um problema pessoal que enfrentei. Somente o caminho. Ele e você. E aquele choro incontrolável de ter que conviver e amar você mesma.

O caminho não é um passeio ou viagem de turismo, é uma peregrinação e exigiu sacrifícios. Caminhar todos os dias durante tanto tempo com uma mochila nas costas (estava com 10 kgs),andar na chuva, no sol, subindo e pior, descendo vários quilômetros, o medo de passar pela comunidade abandonada, onde se dizia que tinha um cão malvado, nenhum albergue em menos de 20 kms, não é tarefa fácil. Mas por outro lado temos a alegria dos amigos, do conhecimento, da cultura, do prazer que é estar num lugar bonito e cheio de energia como é a Espanha.

É impressionante como pessoas de vários países, com culturas e línguas diferentes conseguem se entender e se amar como verdadeiros irmãos num bosque, num vale, no deserto ou mesmo nas cidades do caminho. A emoção de um é a emoção do outro. O sentimento de igualdade existe verdadeiramente. Caminham ricos e pobres, magistrados e analfabetos, homens e mulheres, jovens e velhos. Todos juntos. Sem preconceitos, sem perguntas. Só querendo respostas. Conheci idosos de 83 anos e jovens de 19 (uma francesa e um americano) caminhando. Todos tem um motivo para caminhar e cada um procura a sua resposta.

Quando estava em Leon aprendi, com uma freira que dá a benção aos peregrinos em uma missa na igreja do albergue, que o peregrino é um ” buscador” de respostas. Na hora não entendi o que aquilo significava realmente. Depois de muito tempo é que fui compreender. Lembro das palavras da freira e do quanto foi importante pois ao final da missa todos chorávamos.

O mais importante para mim, foi a descoberta da minha fé. O quanto tenho a agradecer e tão pouco a pedir. As igrejas e as missas são um chamariz dos fiéis. O fato dos cantos gregorianos sempre teve um efeito emocionante para mim. O choro é inevitável, pois sinto uma paz infinita. As missas são rezadas em cantos gregorianos ou as freiras fazem vozes maravilhosas e as igrejas são lindas. Simples e antigas, ou construções imensas, mas todas com uma energia que vem da época e da história do próprio caminho.

Aprendi muito sobre o silencio, aliás foi a primeira vez que “escutei” o silencio. Ninguém na sua frente e nem na vista atrás por horas, por vezes, longe de todos os barulhos por tanto tempo que fui aprendendo a escutar o som das folhas caindo, o ecoar da água escorrendo, e principalmente as pessoas que amamos onde elas estivessem. Coisas deste caminho misterioso.

Não dá para descrever o caminho pois, como todos dizem ao terminar, ele é indescritível. Poderia passar horas e horas falando ou escrevendo sobre o caminho e jamais diria tudo o que é ou representa para quem já foi. Isto explica porque há tantos livros escritos sobre ele. Quem foi não consegue parar de falar no caminho e o que ele significa. Parece que Ele quer que multipliquemos tudo.

Hoje digo: Quem pode, quem quer, vá. Faça o caminho de ônibus, de carro, de bicicleta, de moto, a cavalo ou como o peregrino a pé. Mas vá.

Você jamais vai ser o mesmo. Sua vida vai passar toda na sua frente. Sei apenas que fiz minha caminhada no momento certo. Acho que se fosse mais nova, talvez não tivesse aprendido os ensinamentos que recebi. Sinto também não ter conhecido mais a religiosidade dos espíritas antes de ir. talvez se fosse mais esclarecida, teria aproveitado mais as coisas que aconteceram no caminho.

Sei que jamais serei a mesma depois do caminho e sei que o caminho jamais será o mesmo depois de mim. Dizem na Espanha, que é no Caminho de Santiago que descobrimos se somos peregrinos ou não. É verdade. Descobri que jamais vou parar de caminhar. Quero caminhar para todos os lados e todas as direções.

Afinal sou uma “buscadora”.

Quero agradecer a todas as pessoas que rezaram para que eu conseguisse chegar em Santiago e que de uma forma ou de outra estiveram comigo nesta caminhada ( e elas estiveram). Obrigada principalmente ao meu marido pela compreensão de tudo que se passou, do entendimento dos meus “porquês”, por ter cuidado do nosso bem mais precioso e por fazer com que não me sentisse culpada por estar lá. Obrigada a meu filho que , pequeno, não conseguiu entender porque precisava ir mas mesmo assim dizia por telefone: _ Mãe, tu está onde no mapa da geladeira? Eu te amo. Isto me levava mais um dia e depois mais um dia. Sei que quando crescer vai entender.
Obrigada a meu querido Santiago por me ajudar a chegar.

Obrigada a minha amiga Fernanda Cortez Lima por estar ao meu lado naquele momento em que perdi algo tão importante para mim.

Agradeço a Deus todos os dias por ter me dado a oportunidade de ter estado lá, de fazer parte deste mundo de escolhidos.