Relato de Márcia Cardoso

Dizem que o Caminho dá o que cada um precisa…

Poucos dias antes de embarcar para o Caminho “encantado” de Santiago de Compostela, um sábio amigo me disse: “Márcia, se caminha o quanto pode e não o quanto quer”. Confesso que na hora não dei muita importância para o que escutei, mas dias mais tarde veio a fazer todo o sentido.

Meu desejo em percorrer o Caminho de Santiago de Compostela surgiu com a leitura de um livro de uma autora portoalegrense, que, ao contar sobre sua experiência no Caminho, me encantou. Ao finalizar a leitura não tive dúvidas: iria fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Dizem também que não é você quem escolhe fazer o Caminho, mas o Caminho quem te escolhe. Sendo assim, eu estava apenas atendendo a um chamado.

Desde a minha decisão em percorrer os 800Km do Caminho Francês, até a concretização do meu sonho, passaram-se pouco mais de dois anos. E durante esse tempo eu já respirava o Caminho quase que diariamente. Foram muitas conversas com peregrinos, leituras, participação em palestras. Tudo para estar munida de informações suficientes até a data do meu embarque ao Caminho encantado. Mal sabia eu que nunca estamos completamente preparados.
Durante esse tempo um fato me marcou bastante. Enquanto assistia ao filme “The Way”, enviei uma mensagem a meu pai perguntando se ele me emprestaria sua lanterna de cabeça para eu fazer o Caminho. Ele prontamente respondeu: “Claro minha filha. Mas quando pretendes fazer?” Naquela época eu ainda nem tinha ideia de quando faria, mas já tinha certeza que faria. Um ano e meio depois estava eu no Caminho, com a lanterna do meu pai, meu cajado, e minha mochila cheia de sentimentos, expectativas e medos.

É difícil traduzir em poucos parágrafos tudo o que se vive no Caminho. Costumo dizer que foram os 32 dias mais intensos da minha vida. Quando decidi fazer o Caminho, sozinha, tinha meus motivos, minhas buscas. A principal delas fazia parte de um processo de autoconhecimento, de conexão comigo mesma. Se encontrei tudo o que buscava? Não sei. Mas com certeza encontrei muito além do que imaginava.

Aprendi a vencer obstáculos, a viver um dia de cada vez, a superar limites, a compreender e respeitar as dores dos outros, e as minhas. Aprendi a perceber a natureza, e me dar conta que o mesmo vento que sopra hoje pode ser bom, e amanhã ruim. Quando o dia está muito quente e não encontramos uma sombra sequer, o vento é um alento. Mas esse mesmo vento que em dias quentes é um alento, pode ser cruel ao soprar gelado em um dia frio e chuvoso. Assim é também na vida. O Caminho me mostrou, ainda, que nunca estamos sós. Quando menos esperamos anjos em forma humana aparecem. E ao longo do meu Caminho tive a sorte de desfrutar da companhia de vários deles.

Enfim, fazendo jus à sábia frase de meu amigo, não caminhei o quanto desejava, mas caminhei o suficiente para aprender as lições que o Caminho tinha para me dar. Precisei parar alguns dias, caminhar pouco e bem devagar em outros, compreender o que meu corpo dizia, ter paciência e persistência. No início eu lutava contra minhas dores e medos; aos poucos fui aprendendo a conviver com eles, a aceitá-los, e a superá-los. Meu Caminho não aconteceu exatamente da maneira como eu imaginava. Ainda bem! E é aí que está o encanto! Afinal, o que é o Caminho senão a experiência do novo? E o que é o Caminho senão a própria vida?

Buen caminho!